Cadê o toucinho que “tava” aqui?


Marcos Moreno


O gato comeu. E cadê o gato? Foi pro mato. E cadê o mato? O fogo pegou. E cadê o fogo? Tá aí. A água não veio mais para apagar o fogo. O boi, que se multiplicou tanto graças à engenheira genética, não pode beber a água. Fraco e com sede, não foi carrear o trigo que a galinha não espalhou porque estava confinada em um micro espaço sem poder sequer se mexer. Mas botou o ovo, o frade bebeu e foi celebrar a missa. Cadê a missa? 


Fiéis arrependidos  

A missa está por todo canto, lotada de pessoas (fiéis arrependidos) rogando aos céus que derramem um pouco de água. Mas as nascentes secaram. As matas ciliares foram destruídas, as árvores maiores derrubadas. A vegetação natural foi substituída pela cana-de-açúcar. E o fogo pegou ... Os dias de glória ficaram no passado para esta região central do Brasil. Assim analisam estudiosos dos biomas deste país que, enfim, viu ser destruído praticamente todo o cerrado. Naturalmente está documentado o desaparecimento de centenas de espécies de animais que viviam neste ecossistema, das plantas que as próximas gerações nem saberão o que é. Plantas e animais que só veremos agora em fotografia ou vídeos. A minha geração entendeu, desde muito cedo, o que era nascer e viver numa região riquíssima da agropecuária (para os leitores do blog, sou de Uberaba, MG, Brasil). A maioria das pessoas tinha um quintal generoso com algumas árvores frutíferas e aprendeu a bater no peito com orgulho por apenas pertencer à região, como se isso por si garantisse um passaporte para um mundo de fartura infinita e absurdos desperdícios. Agora está um pouco tarde pra correr pra missa. 



A era de ouro 

A inteligência humana não se compara à sabedoria natural do instinto dos animais não humanos. Esse instinto os preserva, desde que não haja no caminho a inteligência predadora dos humanos.  Mas a “inteligência” humana subestimou demais a natureza e, pela ganância, a destruiu. A história que aprece na literatura infantil com o título de “A Galinha dos ovos de Ouro” ilustra bem a ambição humana. O brilho dos ovos é chamativo e quando se vê um se quer mais, e mais, e mais. Para satisfazer tanto querer, mata-se a galinha para tirar todos os ovos que estão na sua barriga. Foi exatamente o que aconteceu com o cerrado brasileiro. Não o que vai acontecer - vale a pena prestar atenção nesse “detalhe”. FOI o que aconteceu. Já ACONTECEU.  Será que o cerrado vai se recuperar? À custa do desaparecimento de quantas espécies de animais e de plantas? A galinha está morta, os ovos acabaram e o cerrado ardeu em chamas. Pouca combustão espontânea. A maioria dos incêndios provocados pelo homem mesmo. Para “aumentar” o pasto. Para criar gado e plantar a cana ... 



Minha máxima culpa 

A colheita estamos vendo. Um verdadeiro massacre de espécies de animais, o extermínio completo de plantas nativas, um “holocausto” do cerrado. E a partir de agora, quem vai bater no peito com orgulho de ter destruído toda a riqueza de um bioma? Acho que ao invés de bater no peito com orgulho de pertencer a essa região, deveria se bater no peito e repetir: “por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa...”.



(Parceiro publicitário: Moreno Pet Blog)


Marcos Moreno

Comunicador, colunista, criador da Coluna Amigo Animal e do Moreno Pet Blog. 

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