Good Man – Wirson Resende da Cruz Filho


Liana Marzinotto


Fotos: Ari Morais

Quem é você? 

Foi minha primeira pergunta. 

Se fosse a última, não haveria necessidade de fazê-la. 

Meu entrevistado é um Homem que se redescobriu ao iniciar um trabalho de acolhimento, de servir, de tartar e curar a alma. “Hoje sou o homem que nasci para ser”, afirma com convicção de suas escolhas que nascem de um coração que recebe e cuida de pessoas necessitadas de alimento físico e espiritual. E o que elas encontram vai muito além. 

Quando a mente se junta com a alma, surge Deus! 

Nesta enigmática colocação, a benevolência encontra morada, o que é doação se torna aprendizado, o que é necessário se faz presente e o que é amor permanece. 


Wirson Resende da Cruz Filho 

Aos 58 anos, cinco filhos, jornalista, está (como ele gosta de frisar) presidente da Casa de Apoio Danielle em Uberaba, aberta há 20 anos recebendo pacientes e familiares oncológicos que tratam no hospital Hélio Angotti que é referência no tratamento do câncer no Triângulo Mineiro e região. A Casa abriga também pacientes de outros hospitais e seus familiares ou acompanhantes. Wirson, há poucos meses, criou a Casa Renascer que acolhe mulheres vítimas de violência. 



Como surgiu a Casa de Apoio Danielle?

Wirson Cruz  Danielle era uma menina de 7 anos que residia junto com a família em Taubaté-SP e faleceu vítima de acidente. A mãe, Terezinha Xavier dos Santos, em busca de conforto espiritual, veio até Chico Xavier que aconselhou a prática da caridade. Segundo Chico, a dor que ela estava sentindo, a dor de mãe, só se cura com a caridade. Terezinha conheceu o hospital Hélio Angotti. Naquela época, algumas pessoas conseguiam pagar por hospedagem e outras não, ficando no desconforto da calçada, à porta do hospital. A mãe, em um sonho com sua filha, a menina manifestava o desejo de ajudar estas pessoas, o que se confirmou em uma psicografia recebida por Chico Xavier. E assim, surgiu este espaço.  


Fale um pouco da sua história com a Casa de Apoio Danielle.

Wirson Cruz – Tudo começou em março de 2016, antes mesmo do término da gestão anterior que iria até outubro de 2016. Nesse período a casa estava correndo grande risco de fechamento. Nessa época eu fazia parte do corpo de voluntariados da Associação dos Voluntários de Combate ao Câncer - Vencer. Meu primeiro ato foi regularizar a documentação, atualizar o estatuto que não estava de acordo com o marco regulatório da Lei 13.019, providenciar o Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social – CEBAS, necessário para buscar recursos e emendas parlamentares. 


Como é o funcionamento da Casa?

Wirson Cruz  Recebemos em média 1.500 pessoas/mês, sendo 300 de Uberaba e todas chegam com encaminhamento da assistência social dos hospitais. A maioria é do Hélio Angotti, cerca de 80% e são pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde – SUS. 

Chegando à Casa de Apoio, são apresentadas as normas de convivência, fazemos a entrega de um kit para higiêne pessoal, apresentando a estrutura da instituição. 

Temos todas as informações digitalizadas, criamos cadastro, relatório quantitativo de pessoas e de produtos de higiêne e refeições feitas. 

Na Casa oferecemos café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e lanche noturno (opcional), num total de 80 refeições/dia. Se o paciente quiser, a refeição da Casa de Apoio e o hospital liberar, fornecemos o marmitex, que é levado até o leito. 


Como a Casa de Apoio se mantém?

Wirson Cruz – Temos conta bancária para:  doações feitas pessoalmente com a emissão de recibos, doações de diversas naturezas, que chegam diariamente e o bazar. Quando conseguimos recursos via parlamentar, investimos em ampliações e melhorias. Além da parceria com a Prefeitura de Uberaba, há Termos de Colaboração com mais oito municípios e a Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Rio Grande – Amvale. Aqui nossa obra é com a manutenção de aluguel, impostos, salários e hoje conseguimos manter com recursos oriundos do bazar, que antes eram mantidos pela Maçonaria. Os produtos de limpeza, higiêne e alimentos, são todos doações. 



Tem alguma doação que foi especial para você?

Wirson Cruz – Sabe Liana, eu me lembro de todas as doações, mas em especial foi de duas senhoras que residiam na rua Espanha e que relataram a intenção de dividir com a Casa de Apoio uma cesta, caso ganhassem, pois estavam com falta de alimento e precisavam comer. Chegando à Casa, colocamos na dispensa os produtos frutos da divisão da cesta daquelas duas senhoras e desde então, alimentamos todos que aqui chegam em busca de abrigo, nos possibilitando ofertar amor, apoio e respeito. Os materiais de limpeza e higiene nunca ficaram desabastecidos. Aqui é mais do que um espaço físico, aqui mora a fé que todos os dias alimentam o corpo e a alma.  


Existem planos para a Casa de Apoio? Quais são?

Wirson Cruz – O meu sonho é construir uma sede. Não temos terreno. O que existe é a Casa de Apoio Danielle e todos que aqui já passaram e como eu, somos usados em prol da melhoria contínua da obra. Não praticamos gestão pública nem empresarial, aqui é a Casa de Jesus e Deus vai nos guiando.  


A Casa de Apoio oferece atividades para seus ocupantes?

Wirson Cruz – As pessoas que abrigamos contribuem com trabalho de zelar pelo espaço e têm à disposição material para bordado, costura, espaço de leitura e televisão, tabuleiros de dama e xadrez, sinal para internet, leitos para descanso. Diariamente recebemos grupos religiosos e de estudo para oração. 


Como você define o trabalho que a Casa oferece?

Wirson Cruz – Aqui acolhemos. Minha vida hoje se resume a este trabalho. Aqui está a minha pescaria o meu futebol, sou corinthiano e não consigo mais assistir a nenhum jogo do meu time. Mas, aqui se tornou minha referência. 


Fale um pouco da Casa Renascer.

Wirson Cruz – Será um prazer. A Casa Renascer acolhe mulheres vítimas de violência. Tinha vontade de ter um espaço para amparar estas mulheres e um dia passando em frente uma residência, percebi que já a havia visto em sonho. Consegui alugar por um preço inferior ao pedido e numa manhã de sábado a influencer digital Kaká Borges veio trazer doação para a Casa de Apoio e conversando ela me disse de seu desejo em criar uma instituição para acolher mulheres vítimas de violência e isso veio de encontro ao meu anseio. Quando ela visitou a Casa Renascer, ficou encantada com o projeto e nos tornamos parceiros e em 20 dias a casa foi toda mobiliada. Todas as mulheres vítimas de violência são encaminhadas pela Delegacia da Mulher, após triagem e quando chegam recebem hospedagem, alimentação, assistência psicológica, social e jurídica. Pretendemos conseguir ingressar estas mulheres no mercado de trabalho. Todo trabalho é movido pela oportunidade em oferecermos ao outro o que está ao nosso alcance e assim podermos contribuir para um mundo mais justo. 


Casa de Apoio Danielle em números: 

  • Atendimentos: 1.500/mês
  • Leitos:  61
  • Alimentos: 25 Kg/dia; 750Kg/mês
  • Carnes: 15 Kg/dia; 450 Kg/mês
  • Colaboradores: 10


Liana Marzinotto 

Jornalista e Assessora de Relações Institucionais. Relações Públicas do Hospital Hélio Angotti.


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