Mãos à obra


Oportunidades geram boom imobiliário

Jornalista Isabel Minaré



Martelo, carrinho de mão e betoneira têm trabalhado pesado durante a pandemia. Merecem até prêmios! A bem da verdade, provocam ruídos, mas nada que tire o sono ao imaginar a casa reformada ou construída exatamente do gosto do morador. Atrás das ferramentas, estão pedreiros, arquitetos, designers, projetistas, urbanistas, empresários e tantos outros profissionais empenhados em aproveitar este momento para melhorar ou até criar ambientes. 

A difusão do coronavírus trouxe prejuízos para diversos setores. Mas nem tudo foi à ruína ou ficou parado. É o caso da construção civil, que soube lidar com adversidades e contratempos para chegar num intenso e explosivo “boom imobiliário”. As oportunidades para a categoria surgem em ritmo acelerado. 

Assegurar que o ramo não foi impactado é uma grande mentira. Foi sim. Ele passa por limitações na mobilidade e necessidade de isolamento. Além da redução da quantidade de funcionários trabalhando juntos, no mesmo tempo e lugar, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e outras medidas sanitárias receberam mais valor e investimento fora do normal. Afinal, ninguém quer o alastramento da covid-19 em empresas e canteiros de obras. Existem procedimentos específicos na luta contra o vírus na entrada, permanência, horário de almoço e saída do expediente. 

Outro agravante foi a elevação de preços dos insumos, como cimento, aço, PVC e cobre. Conforme relata o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Uberaba (Sinduscon), Luciano Veludo, somente o cimento teve uma alta de, no mínimo, 80%. O fator impactou intensamente contratos de obras públicas junto à iniciativa privada com valores fechados antes da alteração. “Mas nada disso impediu o avanço do setor”, assegura Luciano. Para este ano, a expectativa de crescimento é de 4%, de acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). 

O segredo do sucesso está em driblar os obstáculos. Umas das formas de superação acontece através do uso de tecnologias. Processos digitais, controles de fluxos de caixa, estoque, compras, armazenamento de documentos em nuvem, foco no atendimento por aplicativos. Usar e abusar da internet foi mesmo uma questão de sobrevivência e perspicácia. Outra mudança foi no atendimento, que passou a ser parcial ou totalmente remota. “Por se tratar de uma venda muito consultiva, detalhada e personalizada, não é possível praticar 100% online, mas estamos atendendo muito de forma virtual, fazendo com que os atendimentos presenciais ocorram somente quando for inevitável, porém atendendo todas as orientações sanitárias”, aponta o diretor comercial da Solar Fonte, Mário César Silva. 


Para Mário César, a temporada trouxe mais consciência ambiental. Foto - Lúcio Alves


Junto com a crise, vêm as oportunidades. Uma das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para evitar o contágio é o isolamento social. O novo hábito trouxe um panorama diferente sobre as funções e as necessidades do lugar onde se mora e labuta. Misturou tudo! Casa, escola, trabalho estão juntos no mesmo endereço. Ter um lar e um home office que funcionem sem dores de cabeça é o desafio da construção. As opções não estão obrigatoriamente relacionadas à compra de imóveis, no entanto abrem possibilidades para as reformas. 

As pessoas passaram a avaliar os ambientes e pensar em formas de melhorá-los. É nessa hora que entra o negócio da empresária e sócia-diretora da Contemporane Decorações, Silvia Resende. Ela  observou o volume de trabalho oscilar em 2020. “Março e abril não foram meses bons, porque todo mundo estava com muito medo. Mas, a partir de maio, tivemos uma ótima melhora e o serviço até dobrou”, avalia. O coronavírus alterou a forma de Silvia desempenhar as tarefas. No showroom da Contemporane, o atendimento passou a ser individualizado e com hora marcada. Tudo que é entregue é embalado separadamente.  Tanta demanda exigiu mais trabalhadores. Mais um fator para aquecer a economia: contratações em alta! 

O desenvolvimento repentino nas vendas de itens decorativos é uma decorrência, principalmente, do crescimento do número de reformas. Como é uma das tendências na arquitetura inserir vidros nas fachadas, para proporcionar modernidade, há uma maior necessidade de cortinas. Um ponto leva a outro, pois o ramo da construção é todo interligado. Outro pedido frequente é por papel de parede, aplicável em qualquer cômodo. O investimento na estética gera beleza e aconchego. Para instalá-lo, só é preciso um funcionário. A transformação é rápida, econômica, sem quebra-quebra, sujeira e aglomeração. Quem não quer? 


Silvia Resende viu o trabalho dobrar durante a pandemia. Foto - arquivo pessoal


Soluções para vencer as dificuldades não faltaram. O diretor comercial da Pisos e Persianas, Reginaldo Camargos, traçou uma estratégia: intensificar relações com empresas de consultoria e permuta. Ele recebeu treinamentos e ganhou mercado fora de troca. Além disso, decidiu por diversificar o público, que antes era composto somente pela classe A. A jogada gerou mais clientes e pedidos, apesar de os valores de venda serem menores. Não importa. Atingiu o objetivo. “As ações trouxeram uma estabilidade que não tínhamos antes da pandemia e fez de 2020 o melhor ano da empresa”, comemora. A loja também expandiu a cobertura para outras cidades. Belo Horizonte, Uberlândia, Conceição das Alagoas, Delta e Ribeirão Preto passaram a receber as mercadorias. 


Reginaldo diversificou o público da loja. Foto - arquivo pessoal


Pisos e Persianas entrega fora de Uberaba. Foto - arquivo pessoal


A nova realidade implica em repensar formas de equilíbrio entre vida humana e natural. Um novo jeito de consumir, com mais zelo ao meio ambiente, ganha força. “A consciência ambiental vem crescendo aos poucos entre os brasileiros, mas a maior mudança tem sido em se fazer melhores investimentos e reduzir gastos”, afirma Mário. “Como as pessoas estão passando mais tempo em casa e com a queda da rentabilidade das aplicações financeiras, elas estão buscando o retorno na economia proporcionada pela geração própria de energia”, completa. 

Cláudio Antônio de Oliveira, sócio diretor da Engecad Energia, corrobora a ideia. “Buscamos projetar de forma que o resultado final tenha funcionalidade, respeito aos recursos naturais e tecnologias que proporcionam economias, não nos esquecendo da preservação do meio ambiente. Dessa forma, buscamos conscientizar nossos clientes da necessidade de entregar um produto que não só atenda às expectativas básicas de habitação, mas também que possa contribuir para um mundo melhor, com economia nos recursos naturais”, destaca. 

Cláudio reforça a ideia de que os serviços prestados devem contribuir para um mundo melhor. Foto - arquivo pessoal


A pandemia deixará marcas na área. Conforme listado por Silvia, um dos pendores é a permanência das reformas. “As pessoas viram que ficar num ambiente mais confortável, acolhedor e bonito traz prazer e tranquilidade. É um investimento que faz muita diferença.” Além disso, muitas empresas notaram a boa adaptação de seus funcionários ao teletrabalho e, assim, ele será elevado de temporário a permanente. Mais espaços terão de ser criados ou adequados para atender à demanda. Há ainda o fortalecimento da consciência ambiental, do consumo responsável e da economia circular. Realmente, é um futuro promissor.


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