Mãos Amigas se unem para ajudar o próximo


ONG presta assistência a moradores em situação de rua e pessoas carentes

Jornalista Isabel Minaré 

Fotos Ighor Thomas


A cozinha é o centro do trabalho da entidade


A solidariedade é imprescindível quando se projeta o olhar sobre moradores em situação de rua e pessoas carentes. Um dos trabalhos ofertados a essa comunidade é realizado pelo grupo Mãos Amigas Uberaba. A entidade ajuda a alimentar quem, por infinitas vezes, não tem acesso a cuidados e serviços básicos. 

Mãos Amigas Uberaba é uma associação civil de direito privado, filantrópica e de assistência social, sem fins econômicos. Ela foi criada em 17 de novembro de 2016 por Elaine Cristina da Silva e colegas obstinados em contribuir com os mais necessitados. Elaine tem duas motivações intrínsecas para praticar a empatia: origem e criação. 

A mãe, Silvana da Silva, ficou grávida dela aos 12 anos, vítima de um abuso sexual. Expulsa de casa pelo pai, foi morar na rua, lugar onde também serviu de maternidade para dar à luz a menina. Era uma criança sem nenhuma capacidade de cuidar de si e ainda lutando para tomar conta de outra. A bebê, com poucos meses de vida, foi vista dormindo, toda suja de xixi, encolhida no berço – um caixote podre de madeira. A cena comoveu uma prima de Silvana, Maria Libânia da Silva. Ela não teve dúvidas e decidiu pela adoção de Elaine. 


Elaine vivenciou a realidade das ruas


Libânia ficou conhecida na cidade por apoiar o próximo. Acolhia as pessoas necessitadas na própria casa e doava mantimentos. Oferecia espaço para banho e até deixava dormir. Fazia o possível para prestar socorro à comunidade. A obra foi o embrião para o surgimento do Mãos Amigas. Donizete Faustino era primo de Libânia, com quem aprendeu a importância da solidariedade. É cozinheiro e presidente da instituição. Toda quinta-feira, às 15h30, ele chega à sede, situada à Rua da Constituição, n° 91, no bairro São Benedito, para lavar e picar verduras e legumes e adiantar o preparo das refeições. “Aqueles marmitex (com arroz, feijão, carne, macarrão, salada e às vezes gelatina de sobremesa) não vão só matar a fome, mas também servir como um remédio para a cura da alma ferida. A fé da gente é tanta que faz aquele jantar transformar quem o consome”, acredita.  O segredo da comida boa é justamente este: cozinhá-la com amor e comunhão. São várias mãos e corações para encher o prato de luz e dignidade. O serviço é longo, intenso, agitado e só acaba por volta da meia-noite, depois das entregas nas vias públicas e da limpeza total da cozinha. “Não tem problema porque vou pra casa com o dever cumprido ao fazer uma boa ação”, completa, todo sorridente. 


Emerson, Elaine e Donizete trabalham, com mais voluntários, em prol dos moradores em situação de rua e pessoas carentes

Entre as atividades realizadas pela ONG estão o ‘Jantar solidário’ e o ‘Caldo com amor’. As marmitas levam alimento, afeto, atenção e carinho para aproximadamente 400 pessoas, entre moradores em situação de rua e necessitados. Antes da pandemia, a entidade promovia eventos presenciais como Páscoa, Dias das Mães, Festa Junina, Dia dos Pais, Dias das Crianças e Natal em asilos, orfanatos e regiões específicas. Ela também fazia bingos, galinhadas, feijoadas, pizzas e campanhas emergenciais para arrecadar mantimentos e distribuir cestas básicas. Tudo passou por adaptação para atender às normas de combate contra o novo coronavírus, afinal de contas, a fome não espera a vacina ficar pronta. A ajuda não pode parar! Em novembro, incluiu o bazar na promoção do famoso e popular Black Friday, com roupas e acessórios femininos, masculinos e infantis, resultados de doações. 


A fome não espera vacina

Anos de dedicação rendem histórias comoventes 

O grupo faz campanha para pedir alimentos. Os integrantes batem de porta em porta em busca de donativos. Já chamaram em casarões luxuosos e casinhas simples. Num casebre, a moradora os recebeu e disse ter apenas duas barras de sabão. Mesmo assim, ela quis doar uma. Por que ela fez isso? Porque sentiu a dor do outro. Porque a realidade dela é a mesma vivida pelo colega. Porque já passou fome, frio e foi ajudada. Ela teve com quem contar e quis retribuir. 

As entregas ultrapassam a materialidade. O ápice é doação humana. “Não é só dar o alimento. Quem está na rua se torna invisível para muitos. É olhar no fundo dos olhos, estar disposto, ouvir e contar histórias, brincar, fazer piada. Tem gente de tudo quanto é tipo. Tem gente estudada, com profissão, família formada. Ninguém está ali porque quer. Ninguém deseja uma vida ruim. O buraco social é maior do que podemos imaginar”, frissa Emerson Rodrigues, voluntário. Um dos momentos de maior emoção para ele veio através de um pedido inusitado. Em uma campanha natalina, na qual as crianças normalmente ficam vidradas e ansiosas por presentes, ele ouviu de uma menina: - Tio, me dá um abraço? Abraço, que hoje tanto faz falta, antes já era desejado e solicitado. Qual o valor de um abraço? Qual é o preço? Aquela menininha quis um por quê?


Associação monta aproximadamente 250 cestas básicas por mês


Elaine também já vivenciou situações inesquecíveis. Nessas andanças, testemunhou um homem procurar comida em uma caçamba de lixo. Ele separava alimentos descartados de papel higiênico usado. Aquilo era a esperança, a única opção para diminuir o abismo do estômago. Essas lembranças impulsionam o trabalho contínuo. “Agora com a pandemia, tem mais pessoas na rua. Dá oito, dez horas da noite e tem criança sem comer o dia inteiro. Quando entregamos os marmitex, tem gente com tanta fome que não consegue sequer esperar a colher chegar. Come com a mão mesmo e já pergunta se tem mais”, salienta Elaine.   


Black Friday movimentou o bazar


Mãos Amigas vai expandir o amparo 

Uma das novidades do grupo é o Banheiro Solidário. Aprovado pelas autoridades municipais e adaptado com espaços divididos entre banheiro e trocador, ele deve entrar em funcionamento no início de 2021. O objetivo é oferecer a possibilidade de tomar banho. Ou eles pagam R$ 5,00 para fazer a higiene pessoal no terminal rodoviário ou passam até semanas sem se limparem. A segunda opção é a mais comum. “É uma situação completamente caótica. Nas caminhadas, chegamos com roupas limpas e eles já se trocam, sem mesmo se higienizarem”, complementa Emerson. Além do banho, serão oferecidos kits com sabonete, escova e pasta de dente, desodorante, absorvente, toalha. Haverá conjuntos para homens e mulheres com roupas e sapatos. 

Quer contribuir com a ONG Mãos Amigas Uberaba? Vá até a sede ou entre em contato pelas redes sociais Facebook e Instagram.


Banheiro Solidário deve funcionar no começo de 2021


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