Quero casa!


Pandemia dá novo significado aos imóveis

Jornalista Isabel Minaré 



Tudo num lugar só 

“O mercado imobiliário agora está em alta”, garante o empresário e corretor de imóveis Guilherme Araújo. A temporada é de aquecimento nas locações e vendas de terrenos, chácaras, sítios, casas (tanto em bairros como em condomínios horizontais) devido à uma nova percepção de moradia. A casa servia para dormir e tomar banho, basicamente. Com a quarentena, por ficar 24 horas, 7 dias por semana num mesmo endereço, vários fatores receberam outro peso e passaram a incomodar bastante. Muita gente não aguentou o sufoco e resolveu se mudar. 

A alteração de comportamento é explícita. Antes, quem procurava imóveis para alugar ou comprar queria ficar perto do comércio, da escola, do escritório ou de meios de transporte que facilitassem as idas e vindas. A covid mudou tudo isso porque colocou diversas atividades num só local. O trabalho, o colégio, os cursos, as refeições, a diversão e até os exercícios físicos migraram para dentro de casa. Ninguém nem precisa sair pra fazer compras se não quiser. Dá pra ligar ou pedir pela internet. É economia de tempo e combustível. Tantas funções e pessoas juntas rogam por espaços apropriados e personalizados. 

Sem a obrigatoriedade e previsão certeira de início da vacinação contra a covid, ficar em casa é uma das formas possíveis e recomendadas para relaxar e diminuir a tensão sobre o contágio.  Segundo Guilherme, para 2021 as pessoas querem saúde e segurança, inclusive onde moram.  Segurança de se deslocar sem violência e contaminação. Segurança em conviver com familiares e não pegar nem transmitir o vírus. Confiança, tranquilidade, firmeza emocional e intelectual. Mais um fator para corroborar a busca por espaço.  



Home office

A pandemia transferiu o local de trabalho de muitos brasileiros para dentro de casa. Jamais exercer a profissão de forma remota foi tão urgente, necessário e comum. O home office mudou a relação das pessoas com suas moradias e, por conseguinte, com a região em que vivem. E não teria como isso não mexer o mercado de imóveis. 



Trabalhar em casa requer foco, silêncio e organização de horários. Não dá pra ter uma rotina produtiva com barulho, gritaria e movimento. Por isso, a novidade clama por um território próprio. A vice-presidente do Instituto de Engenharia e Arquitetura do Triângulo Mineiro (IEATM), a arquiteta e urbanista Ale Roso, comprova a ideia. “O home office foi, sem dúvida, o espaço mais solicitado nos projetos nos últimos tempos”, explica. A construção de uma área somente para ele ou a adaptação de outras, antes utilizadas cotidianamente, foi necessária para se adequar ao novo estilo de vida. 


Ale Roso


Lazer importa

As pessoas sentiram na pele o que é ficar preso nesta pandemia. Então, o que elas mais almejam é abandonar a firmeza e cair com tudo em liberdade. Imóveis com atributos como vista livre, varanda e ambientes bem divididos passaram a ser mais valorizados pelo consumidor na quarentena. “A varanda gourmet também está sendo muito utilizada, pois as famílias passaram a fazer refeições em casa”, determina. 

Guilherme complementa: os clientes querem piscina e churrasqueira. Praticar natação, (um dos esportes mais completos e com menos risco de lesão) logo ali no quintal ou simplesmente dar um mergulho para revigorar e se refrescar do calorão. Fazer um churrasquinho – paixão nacional – comer, dar risada, ouvir música e se divertir. Tudo imprescindível nesta época. “É um espaço onde elas possam confraternizar com aqueles que moram na casa e isso pode servir como uma válvula de escape para esse ambiente pesado que a pandemia trouxe.”



Verde que te quero verde

Mais tempo em casa significa uma atenção maior com o ambiente onde mora. Plantas e flores começaram a despertar paixões. “Cuidados maiores com hortas, vasos e jardins tem sido muito praticado e passaram a ser uma prioridade da família, visando o bem-estar dos filhos e animais”, completa Ale. E por falar em filhos, eles também precisam de espaço para estudar e brincar. Nessa hora, entra a brinquedoteca, o playground, o quintal, o tapete esparramado na sala, a parede de quadro negro, a mesinha improvisada no quarto e infinitas opções, para atender diferentes bolsos e metragens. O importante é delimitar um terreno para a bagunça e o aprendizado infantil. 



Tempo de novidades

Sim, mesmo em tempos sombrios, há brechas para a claridade. É o que aconteceu no setor imobiliário. Uma novidade é a reformulação do programa do governo federal Minha Casa Minha Vida, instituído em 2009 durante a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Casa Verde e Amarela, idealizado pela administração Jair Bolsonaro. “Há uma baixa de juros para financiamento de imóveis e muitos novos empreendimentos sendo lançados, principalmente visando a essa nova realidade de home office e pandemia, tanto para apartamentos quanto para casas”, afirma Guilherme. 

Um fato, não tão novo, é o uso da tecnologia para auxiliar o setor. A internet, extensão no nosso pensamento, mudou radicalmente a experiência do consumidor ao comprar/ alugar imóvel. Um clique e ele está dentro da casa dos sonhos. O tour virtual pode ser realizado a qualquer minuto do dia ou da noite e por uma série de pessoas ao mesmo tempo, seja no celular, seja no computador. O objetivo é mostrar uma visão quase real, com detalhes dos cômodos, para “facilitar na hora de uma negociação e oferecer uma segurança maior daquilo que se está comprando”. 


Setor pós-pandemia

Para depois da pandemia, a lição é aproveitar o que se entendeu como mais preciosos: tempo e espaço, através do consumo reflexivo, e dar um fim a qualquer tipo de desperdício. “A tendência é o imóvel racionalizado: com respaldo para home office e conforto para a família passar a mais tempo em casa. O imóvel agora tem uma conotação de segurança”, finaliza Guilherme.


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