Nossa Rica Uberaba - Antônio Martins Fontoura Borges


Gilberto Rezende


Antonio Martins Fontoura Borges

Antonio Martins Fontoura Borges


Antônio Martins Fontoura Borges, mais conhecido como Toniquinho Martins, nascido em Uberaba em 23 de março de 1898, foi um dos maiores empreendedores que a cidade conheceu. 

No setor rural, Toniquinho Martins foi destaque pela criação de gado Zebu de alta linhagem da raça Indubrasil, plantio de café, mantendo a tradição da família em suas fazendas da Mandioca, São Sebastião e Coqueiros, localizadas no município de Conquista (MG), com áreas superiores a 3.000 hectares. Em 1934, foi um dos fundadores da SRTM (Sindicato Rural do Triângulo Mineiro), que mais tarde se transformaria na ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de Zebu). 


Fazenda da Mandioca - comprada em 1935 pelo Toniquinho e herdada pelo filho Joaquim José


Fazenda Bacuri - construída por Antonio Martins Borges foi passada para seu filho a Alberto M. Fontoura Borges


Atuou fortemente na área industrial. Em 1924 junto com seu pai, Antônio Martins Borges e seu irmão Alberto Martins Fontoura Borges e José Ferreira de Mendonça, associaram-se aos irmãos Heitor e José Baia Mascarenhas e fundaram, com 1.700 contos de capital, a Companhia Fabril do Triângulo Mineiro, na praça Dr. Adjuto, no bairro São Benedito, onde construíram uma grande fábrica de tecidos. Com a compra da fábrica de tecidos do Cassú, que era de propriedade de Carlos Gabriel de Andrade, o Barão de Saramenha, unificaram as empresas em 1928, constituindo-se na maior organização industrial até então existente em Uberaba e a única indústria têxtil de toda região do Triângulo Mineiro. A fábrica fundada em 1882 pela família Araújo Borges, localizada às margens do ribeirão Cassú, bem perto da Casa do Folclore, chegou a ter uma vila com 100 residências, construídas pela própria empresa, “Fábrica de Tecidos Santo Antônio do Cassú” e cerca de 500 moradores. 


Fábrica de Tecidos - Praça Dr. Adjuto


Fábrica de Tecidos Cassú


Uma de suas primeiras participações na área comercial foi em 1930 na fundação da empresa Orlando Rodrigues da Cunha & Cia. Ltda., tendo como sócios outros grandes empreendedores como seu irmão Alberto Martins Fontoura Borges, Orlando Rodrigues da Cunha e Agenor Fontoura Borges. Em 1931, a empresa inaugurou o Cine São Luiz, na praça Rui Barbosa, bem no centro da cidade. 


Cine São Luis - década de 1930


Com a admissão de Joaquim Machado Borges, a empresa construiu e inaugurou em 1941 o Grande Hotel e o Cine Metrópole na avenida Leopoldino de Oliveira e arrendou o antigo cinema Capitólio, transformando-o em Cine Royal (matinê aos domingos, 400 réis o ingresso). 

Em 1947, a empresa admitiu como sócios os irmãos Hugo e Carlos Alberto, filhos de Orlando Rodrigues Cunha, e passa a condição de S/A com o nome de Cia. Cinematográfica São Luís. Em 1949, constrói e inaugura o Cine Vera Cruz, na confluência das ruas São Benedito e José de Alencar. 


Cine Teatro Municipal Vera Cruz


No setor farmacêutico em 1940, Toniquinho implantou, com seu irmão Alberto e alguns companheiros, a Drogaria Triângulo, localizada na rua Manoel Borges, ao lado da praça Rui Barbosa, cuja administração ficou a cargo de João de Carvalho. 

Toniquinho Martins também foi destaque no setor financeiro. Em 1943, com seu primo Ronan Rodrigues Borges, criou o Banco Nacional do Comércio e Produção, matriz na cidade do Rio de Janeiro e agências em São Paulo, Uberaba e Conquista.

 No quadro de funcionários da agência de Uberaba, na década de 1950, constavam os nomes do gerente Caricio Borges e dos funcionários Joel de Andrade Lóes, Gilberto Rezende, José Nilo Praes, José Alberto Andrade, Albertino Rodrigues da Cunha, José Virgílio, entre outros. 

Naquela época o tratamento do banco com seus clientes era personalizado. Cada grande correntista tinha sua caderneta onde eram anoitados os depósitos e os juros. A operação era de alçada exclusiva do gerente que mantinha uma taxa diferenciada de juros para cada categoria de cliente, com direito a reclamação e ratificação. 

Entre os mais assíduos destes clientes, poderiam ser destacados os nomes de Artur Machado Júnior, Clemente Marzola, Ronan Marquez, Arthur de Castro Cunha, Jurandir Cordeiro, Orlando Rodrigues da Cunha e abastados fazendeiros da região. 


Orlando Rodrigues da Cunha


No setor imobiliário, Toniquinho loteou uma grande área da qual era proprietário, no bairro da Gávea, Rio de Janeiro. Residia em uma mansão situada na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde por diversas vezes foi abordado para vendê-la ao governo americano para transformá-la em embaixada. 

Dotado de uma extraordinária argúcia comercial, percebeu que a Bolsa de Valores iria à bancarrota quando seu engraxate lhe comunicou, no início de 1971, que havia adquirido um lote de ações de algumas empresas. Com essa informação, sabendo que a dispersão das ações iria provocar um debacle, vendeu sua carteira de ações. Foi um dos poucos grandes investidores a se salvar da grande derrocada da Bolsa que abalou por muitos anos a economia brasileira. 

Foram mais de sessenta anos de investimentos nos mais diversos segmentos econômicos. Seu vasto rebanho de gado selecionado o colocava na reconhecida posição de grande criador da pecuária nacional. 

No setor hoteleiro, a empresa Orlando Rodrigues da Cunha & Cia, da qual Toniquinho participava, foi a pioneira na construção do primeiro grande estabelecimento do interior de Minas Gerais, tendo na história Grande Hotel o registro de hospedagem de grandes figuras da política brasileira e estrelas internacionais como Tito Schipa, tenor italiano que figura até hoje na galeria dos grandes intérpretes de óperas. 


Grande Hotel – 2013


Os cinemas faziam diversas sessões para comportar o público interessado nos grandes filmes que eram lançados. No final de semana, filas imensas se formavam em frente ao Cine Metrópole, que se estendiam até a praça Rui Barbosa. 

Nas palavras de Firmino Libório Leal, em Conquista, Toniquinho Martins era um “homem probo, íntegro, conciliador, de conduta ilibada. Com natural desprendimento, participou ativamente com largos haveres para a criação e construção da Santa Casa de Misericórdia de Conquista e da Escola Estadual de Conquista, atual Escola Estadual Dr. Lindolfo Bernardes dos Santos. Além disso, mantinha em suas propriedades dezenas de famílias, entre agregados e funcionários, onde, como patrão honesto e justo, tratava a todos com distinção, lhaneza, proteção e abrigo”. 

No início da década de 80, reconhecido como um dos mais brilhantes executivos brasileiros, Toniquinho, já chegando aos oitenta anos, resolveu que já estava passando da hora de começar a usufruir das benesses que lhe seriam propiciadas pelo grande império econômico que construiu em sua vida.

O destino, todavia, lhe reservou outro caminho. Ao chegar em sua casa na cidade de Conquista, de mudança definitiva de sua residência no Rio de Janeiro, foi acometido por uma grave doença que o impediu de sair de seu leito para sempre. Faleceu em 13 de maio de 1984 aos 86 anos de idade. 

Sem o grande timoneiro e com as mudanças ocorridas em todos os setores da economia brasileira, as empresas de que Toniquinho Martins participava passaram e algumas continuam passando, por situações críticas. 

O Banco Nacional do Comércio e Produção já havia sido incorporado pelo Banco da Lavoura que, por sua vez, foi incorporado pelo Banco Real e atualmente está sob o controle do Banco Santander. 

Os cinemas, que já contaram com a administração, primeiramente dos sócios fundadores e mais tarde com a dos empresários Lúcio Ferreira Borges, Hugo Rodrigues da Cunha, Carlos Alberto Rodrigues da Cunha e Joaquim José, foram perdendo gradativamente sua clientela após a criação da Internet, obrigando-se ao fechamento de todas as salas de projeção. 


Laura Machado Borges e os filhos Hugo e Carlos Alberto R. Cunha


O Grande Hotel, por não dispor de garagens, viu definhar o interesse de seus hóspedes. Com a possibilidade de o imóvel ir à leilão em decorrência de impostos não recolhidos, junto à Fazenda Nacional, um dos acionistas da empresa, Carlos Alberto Rodrigues da Cunha, adquiriu a totalidade das ações dos outros acionistas e quitou todos os débitos de impostos, se tornando assim, o único proprietário do imóvel. Tendo conhecimento de que o imóvel onde funcionou o Grande Hotel estava inventariado, Carlos Alberto elaborou um projeto de revitalização que foi aprovado pelo Conphau (Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba). Com seu falecimento, tudo voltou à estaca zero e não se sabe que destino irá ser dado ao antigo hotel. 

O Cine Teatro São Luiz foi leiloado para pagamento de débitos fiscais e trabalhistas. O Cine Vera Cruz foi adquirido pela Prefeitura Municipal de Uberaba, governo Anderson Adauto e é hoje Teatro Municipal. 

Grande parte das fazendas foram transferidas para herdeiros de ex-funcionário, em decorrência de ações trabalhistas em desfavor da viúva de Toniquinho. 

A Indústria Têxtil, transferida da praça Dr. Adjuto para o Distrito Industrial, criado no governo de João Guido teve diversos administradores em sua longa existência. Em 1993, a empresa, sob o comando de Joaquim José e sua sócia e companheira, Sandra Magalhães, requereu sua própria falência, após 114 anos de atividade. Somente em 2020, 17 anos após a decretação da falência é que o imóvel foi arrematado por uma empresa chinesa. 

Antônio Martins Fontoura Borges era casado com a senhora Cornélia de Oliveira Borges e tiveram um único filho, Joaquim José Martins Borges que faleceu em 18 de agosto de 2015, deixando uma filha, Silvia, do primeiro casamento com a Helsia e um filho, Antônio Martins Fontoura Borges Neto, fruto de seu segundo casamento com Sandra Gonçalves. 


Antonio Martins Fontoura Borges e sua esposa Cornélia 


O pioneirismo de Antônio Martins Fontoura Borges e de seu irmão Alberto Martins Fontoura Borges, em conjunto com o grupo formado pela empresa de Orlando Rodrigues da Cunha, deu a Uberaba, por muitos anos, exemplos de arrojos em empreendedorismo, dando valiosa contribuição para seu desenvolvimento econômico. Todos os administradores da primeira e segunda geração são hoje apenas saudades. 

“Alberto Martins Fontoura Borges” é o nome da avenida que passa em frente da antiga fábrica de tecidos no bairro São Benedito. É nome de Escola do SESI, localizada no Jardim Frei Eugênio. “Hugo Rodrigues da Cunha” é nome da última ETE construída pelo CODAU. “Orlando Rodrigues da Cunha” é nome de movimentada avenida no bairro da Abadia. 


Antônio e Alberto Martins Fontoura Borges


A comunidade de Uberaba fica devendo para o tributo da história as devidas homenagens à memória de Antônio Martins Fontoura Borges por tudo que este empreendedor visionário fez em benefício da cidade. 


Fontes: Guido Bilharinho – Livro - Uberaba Dois Séculos De História – Volume II; Firmino Libório Leal – Artigo - Antônio Martins Fontoura Borges “Toniquinho”. Uma página esquecida na história de Conquista; Superintendência do Arquivo Público de Uberaba; Jornal da Manhã; Museu do Zebu – livreto - Fazendas de criação do Triângulo Mineiro; Carla Mendes Bruno Brady e Randolfo Borges Filho – livro A epopeia dos Borges; Claudia Marun Mascarenhas Martins – Tese – As empresas do grupo Mascarenhas e o desenvolvimento de sociedades anônimas; Antônio Ronaldo Rodrigues da Cunha e Marta Amato – Foto do Livro “Os Rodrigues da Cunha – A Saga de uma Família”; Antônio Alberto Silva Borges e Sônia Machado Cunha Válio.


Gilberto Rezende

Empresário, membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ex-presidente da ACIU e do CIGRA. 


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