Urban Jungle


A natureza dentro de casa

Jornalista Isabel Minaré


Na hora de construir, reformar e decorar, é cada vez mais frequente não analisar apenas o espaço entre as pilastras e as paredes. Entender o mundo exterior como parte do imóvel é a tendência de decoração que veio para ficar. O nome é urban jungle (em tradução livre: selva urbana) e indica a presença máxima da natureza dentro de casa. 

Tem quem comece com um vasinho. Há quem compre logo uma dezena de plantas e encha o carro de caixas. Paredes e/ou móveis verdes, quadros e objetos que remetem à natureza, vasos, prateleiras, materiais como madeira, bambu e palha ajudam na composição. Quando se dá por si, está absorvido pela urban jungle! O movimento foi intensificado durante o isolamento social, no qual muitos brasileiros fazem da jardinagem um importante passatempo. A ‘floresta’ passou a preencher os lares para torná-los mais aconchegantes, intimistas e vívidos. No mar de concreto que são as cidades, a busca pelo meio ambiente é necessária. Uma sociedade que vive com o celular na palma da mão pouco vê e sente o mundo aquém das telas. 

Números gigantescos comprovam o fortalecimento da tendência. No começo da pandemia, o setor ornamental tinha expectativa de queda devido à suspensão de eventos. Mas a realidade foi outra. Ele assinalou alta. De acordo com o Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), alguns produtores registraram aumento de até 20% nos negócios. O Ibraflor comprova o tamanho do mercado: mais de 8 mil produtores, 15 mil hectares de área cultivada, 200 mil empregos em toda a cadeia, R$ 9,5 bilhões em movimento e o consumo per capita de R$ 45. A perspectiva continua positiva para este ano, com probabilidade de crescimento de 5%. 


Estar próximo na natureza é umas necessidades mais gritantes da sociedade. Foto - Fernando Lopes


Esse boom de urban jungle é resultado de três fatores: decoração, terapia e presente. As pessoas estão mais tempo confinadas e percebem a necessidade de organizar lugares que não recebiam atenção anteriormente. “A flor ou planta é uma grande aliada na decoração para proporcionar aconchego”, assegura a empresária e florista Natalie Silva, da floricultura Amor Perfeito. Além disso, mexer na terra tem efeitos terapêuticos e colabora na descontração dos problemas que a quarentena trouxe e/ou enfatizou. A atividade ajuda no autoconhecimento, controle da depressão, redução de estresse, etc. O segmento expandiu como oportunidade de presente. Na era do compartilhamento, umas das formas de partilhar com mais segurança é presentear com flores, através de delivery ou e-commerce. Pode ser uma muda do quintal ou um buquê requintadíssimo. O importante é se lembrar do outro, como forma de minimizar a saudade. Além das plantas vivas, a empresária está atenta a um dos itens mais solicitados no movimento: as flores desidratadas. “Estamos implantando aos poucos por ser uma tendência que está retornando ao mercado”, esclarece.


Plantas proporcionam beleza e aconchego ao lar. Foto - Natalie Silva


Outra alteração no perfil do consumidor colabora para ocupar os lares com vegetação: a vontade de produzir o próprio alimento. Não é preciso muito para começar. Basta ter vaso, terra e espaço com sol. Árvores, de grande e pequeno porte, de limão, jabuticaba, acerola e pitanga são opções. Temperos como alecrim, cebolinha, coentro, hortelã, louro, manjericão, orégano, salsa e tomilho podem ser cultivados com facilidade. Depois, é só pegar as frutas e os ingredientes fresquinhos e colocar no prato. Os impactos são benéficos, como a alimentação mais saudável, economia nas compras e produção de menos lixo. 

O paisagista Fernando Lopes, da Ubergramas, observou o aumento na quantidade de pedidos por hortas caseiras. Ele também notou o desejo por plantas que florescem, exalam perfume e atraem borboletas e beija-flores para perto. Quer dizer, são beleza e aromas naturais em casa, sem sacrifício. Para ele, os efeitos de estar mais próximo do verde incluem a elevação da umidade do ar, a diminuição da temperatura, além dos lados contemplativo e participativo. Outra observação é sobre o misticismo. “Há alta procura por plantas conhecidas por proporcionarem boas energias, como a lança, Espada-de-São-Jorge, arruda e o vaso de sete ervas”, explica. 

O trabalho de paisagismo não parou durante este período, pois está ligado à construção civil, área essencial para o desenvolvimento do País. Fernando precisou contratar mais três funcionários para dar conta do aumento da demanda. Um dos focos dele é condomínio fechado, onde a preferência costuma ser por tamareira, sagu-de-jardim e palmeira rabo-de-raposa, com preços superiores. “O custo de ter um jardim em casa é em torno de 1 a 3 % do valor do imóvel”, afirma. Para quem desejar gastar menos, as sugestões são impatiens, ixora e orquídea-bambu. 


De acordo com Fernando, o investimento em paisagismo gira em torno de 1 a 3 % do valor do imóvel. Foto - Fernando Lopes


De acordo com o arquiteto Rafael Menezes, da Formatto Arquitetura, os clientes gostam mais de propostas direcionadas a quartos, escritórios, salas e, principalmente, quintais envoltos à piscina. Pergolados, jardins verticais e telhados verdes estão entre os mais pedidos. Diversos itens podem ser adicionados para dar criatividade e riqueza à paisagem como vasos, bacias, lagos artificiais e cascatas. Experiente na área, Rafael percebe o desejo do público de ter paisagismo com menos manutenção possível, com jardins com tipologias baseadas em folhagens e seixos, sem muita utilização de grama. Mas é preciso cuidado e tempo: além de plantas e flores, é necessário analisar outros fatores, como o próprio ambiente, a orientação solar, o solo e o entorno. O resultado é um trabalho que influencia diretamente na psicologia ambiental e traduz espaços mais aconchegantes, refrescantes e que remetem à sensação de paz. “O urban jungle veio para ficar!” 


Projeto de Rafael Menezes, no estilo Urban Jungle, para a Clínica Spa Lazer


Apartamentos, varandas, quitinetes e coberturas podem ser repaginados. Não é necessário grandes espaços, mas o coração aberto para zelar pelo meio. É o caso da vendedora Andréia Silva. A avó lhe presentou com um vaso de lavanda para servir de companhia. Ela gostou e começou a se interessar por outros tipos. Agora, todos os cômodos do apartamento de 40 m² têm ao menos uma plantinha. A cada dia, aprende sobre paciência e responsabilidade, ao sentir uma mudança de dentro pra fora. 


Em pequenos espaços, um canto bem planejado garante a sua mini floresta urbana


A florista Natalie deixa um conselho para quem está com dúvida em investir na floresta urbana: - Arrisque-se e não tenha medo. Acredite, pois vai se surpreender! É só dar um pouquinho de atenção que receberá a beleza em forma de gratidão!


Arranjos e buques oferecem o toque especial da natureza em seu lar. Foto - Natalie Silva


Siga a Revista Mulheres no Instagram e no Facebook.