Para se tornar um homem melhor


Jornalista Juba Maria



Uma história. Amor de longos anos. Terezinha era uma mulher da periferia. O marido abandonou a esposa depois dos primeiros sinais de esquizofrenia. Ele precisava de uma mulher que cuidasse da casa. Ela estava adoecida. Os anos se passaram. Ela não se esquecera do companheiro de outrora. Ele tampouco conseguiu descontinuar o encontro com a mulher que nunca deixou de amar. Muitos anos depois, as lágrimas daquele homem revelavam, de um lado, a falência do mundo machista, e do outro, a necessidade de se buscar novos caminhos de direito e vida. Quem conta essa história é Jorge Bichuetti, médico, escritor, terapeuta de larga experiência no atendimento clínico em Uberaba.


Dr. Jorge Bichuetti.


Por sorte, os tempos estão mudando. Já é uma realidade a existência de homens que dividem por igual as responsabilidades da casa e da criação dos filhos, se posicionam de forma não-violenta, entendem que não há um único jeito de “ser homem”, expressam seus sentimentos e choram, reconhecem e respeitam a liberdade das companheiras ou companheiros na tomada de decisões e escolhas, respeitam a orientação sexual de outras pessoas, não fazem piadas de mau gosto nem objetificam as mulheres e desconstroem os padrões tóxicos de comportamento prejudiciais às relações de modo geral. 

Essas são apenas algumas das características de um perfil que cresce cada vez mais em nossa sociedade, provando a importância das revoluções na esfera privada quando se trata de construir um mundo mais justo e igualitário. Estamos tratando de uma tema dos Estudos de Gênero denominado como Masculinidades. Mas alto lá: não confunda masculinidade com masculinismo; esse último, um movimento misógino, em que os homens se colocam com vítimas das feministas e se recusam a reconhecer que ainda se encontram no topo e gozam de privilégios nos espaços das sociedades contemporâneas.

Para entender como alguns homens lidam com o tema Masculinidades, além de Jorge Bichuetti, conversei também com o escrivão da Polícia Civil, Pedro Perassi e com o historiador e professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Flávio Saldanha, que revelaram à Revista Mulheres aspectos importantíssimos sobre o tema a partir do entendimento de que a masculinidade tóxica é a imposição de comportamento masculino machista. Recomendo ainda às leitoras e leitores, interessados em se aprofundar no tema, o documentário, “O silêncio dos homens”, produzido pelo site Papodehomem, a série “Big Little Lies”, da HBO e os livros “As cores da masculinidade”, de Mara Viveros, e “De Guri a Cabra Macho: Masculinidades no Brasil”, de Jorge Lyra.

Voltando ao tema, na opinião de Pedro Perassi, 36 anos, nascido em Juiz de Fora (MG), estudar as masculinidades é fundamental para identificar e compreender os aspectos da masculinidade tóxica e um importante passo para uma mudança de paradigma. “As mulheres são as principais vítimas do machismo, mas também nós homens nos prejudicamos, somos construídos socialmente para nos identificarmos como homens, processo que gera muito sofrimento e traumas”, disse. “Acho interessante a criação de grupos de homens para discutir masculinidade tóxica”, completa.


Pedro e a esposa Gabriela.

Outro olhar importante foi apontado por Jorge Bichuetti. Ele observa que o homem é predominantemente uma existência baseada no poder, na exclusão da ternura, na cultura fálica dominante, dominadora e violenta. Para ele, é necessário se pensar em uma nova suavidade, que permita o amor, o encontro, a possibilidade da vida como expressão de direitos e vivência de cidadania, da convivência entre pessoas sem subjugação de uma por outra. “O ser homem hoje ainda exige, na restrição falocêntrica da vida, a subjugação do outro”, observa. Jorge traz outras reflexões: a tarefa do lar quando realizada de modo igualitário quebra a dominação do macho que exclui, no dia a dia, a vida enquanto produção de iguais. “Além disso, o homem, na sua subjetividade falocêntrica, encontra-se inibido do sensível, do terno, da vivência singela, o que amputa e torna a vida mais vulnerável, monolítica e empobrecida”, observa. O machismo, de acordo com ele, inibe a potência do humano e a capacidade criativa do homem integral. A expressão “o homem não chora”, por exemplo, estaria levando ao adoecimento, às doenças da violência que o homem se impõe, calando em si os sentimentos e provocando depressão, dependência química, angústia e infelicidade. “Estamos adoecidos por viver vidas longe do integral, do crescimento do homem enquanto sensibilidade, potência, fantasia e arte”, avalia. Ele aponta ainda que a Esquizoanálise - conjunto de críticas à psicanálise tradicional, bem como um novo instrumento para decifrar a subjetividade - entende que a lógica machista, falocêntrica, de dominação, impede o homem de explorar tudo o que vida possibilita em um corpo capaz de ser amor e sonho. Para se libertarem, homens e mulheres precisam, então, desbravar novas possibilidades: a masculinidade sadia e a feminilidade criativa, permitindo resgatar, no cotidiano, as potências do feminino. “Pouco a pouco o homem vem se mostrando e mudando. A masculinidade adoecida está em crise porque inibe o prazer, a criatividade e a capacidade de um corpo explorar-se enquanto felicidade. Para viver uma masculinidade sadia, o homem precisa redescobrir no feminino um caminho de vida, que pode se dar na descoberta da cidadania, na luta por direitos e contra toda forma de violência, uma masculinidade afirmada na suavidade, na capacidade terna de enamorar-se, dar-se, de estar com o outro respeitando os direitos, o corpo e a vida”, analisa.


Pedro a filha Laura.


Sob a perspectiva histórica, Flávio explica que a sociedade brasileira foi baseada na escravidão e no patriarcado, em que o homem branco foi colocado como provedor do lar. Esse patriarca era uma pessoa que devia ser respeitada e temida, por ter poder sobre a vida e a morte de seus familiares e seus escravizados. Tinha um papel viril, provedor, mantenedor do lar. Nesse contexto, sentimentos que demonstrassem fraqueza e sensibilidade eram vistos como negativos, um caráter estritamente feminino. Além disso, as mulheres negras e indígenas sofriam uma dupla violência. Além da escravidão, eram submetidas a violências sexuais ou mesmo uniões não consensuais uma vez que eram em menor número as mulheres brancas disponíveis no Brasil Colônia. Com isso, se forjaram padrões que perpetuam na atualidade, expressos, por exemplo, na absurda frase: “o lugar da mulher branca é no altar, da negra na cozinha e da mulata, na cama”. O resultado é que essa masculinidade tóxica, geradora de violência, se perpetuou de modo aos homens não conseguirem aceitar até hoje que as mulheres sejam emancipadas e independentes. De acordo com Flávio, apenas a educação poderia contribuir para mudar os altos índices de violência contra a mulher no Brasil. “É necessário dar voz a essa sensibilidade dos homens, dar voz à masculinidade reprimida dos homens, ensinando o pai a conversar com seu filho, para que tenham mais intimidade e aproximação. Eu mesmo nunca tive isso. Meu pai não chegava e dizia, por exemplo ‘Filho, como estão as coisas na escola?” O padrão masculino autoritário tem gerado muitas violências físicas e psicológicas principalmente para as mulheres, mas também para os homens, que sofrem em silêncio”, diz. 

Flávio finaliza essa entrevista com uma frase, que precisamos aceitar como um mantra: É necessário dar o primeiro passo rumo a uma longa caminhada de relacionamentos saudáveis para homens e mulheres”.


Flávio com a filha Cecília.

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