A economia do futuro


Em Uberaba, mulheres que atuam na chamada economia do cuidado se movimentam em ações, que visam trocar experiências de negócios e aprender sobre a lógica do cooperativismo

Jornalista Juba Maria


A economia do cuidado será o trabalho do futuro e corresponde à maior parte dos produtos e serviços ofertados por mais de 400 mulheres presentes em dois importantes eventos para esse público realizados em Uberaba nos meses de fevereiro e março: o “Ela Pode”, patrocinado pelo Google, e a “Nossa, feira! - Mulheres aprendendo a cooperar”, realizado por voluntárias e colaboradoras da INANA, que promove ações de enfrentamento à violência contra a mulher e busca construir culturas sadias. Ambos os eventos foram ofertados gratuitamente e atingiram, juntos, um público de mais de 700 pessoas. Em Uberaba, vale destacar, 48,41% dos microempreendimentos (6.302 empresas) são gerenciados por mulheres, contra 6.716 microempreendedores homens. Desse total, 99% correspondem à chamada economia do cuidado, segundo dados recentes da Sala Mineira do Empreendedor.

Para a Organização Internacional do Comércio (OIT), o crescimento desse mercado necessário para enfrentar a enorme disparidade entre o trabalho e as responsabilidades que recaem sobre mulheres. Para a empresária e organizadora do “Ela Pode”, Luciane Abadia, o mercado de trabalho, de um modo geral, é cruel para a mulher. “Além das tarefas de casa, relacionamentos, filhos e trabalho, ainda tem a cobrança por um padrão pessoal impraticável”, disse.  Mais de 65% das mulheres, por exemplo, não voltam ao mercado de trabalho após o término da licença-maternidade. “As empresas ainda não perceberam que a maternidade não é um problema para o desempenho profissional. Muito pelo contrário”, disse Luciane. Segundo ela, após tornarem-se mães, muitas mulheres se veem empurradas, por diversos motivos, para algum negócio próprio, que, geralmente, têm relação com uma atividade que desenvolviam anteriormente de modo não remunerado.

É o caso de Roberta Ventes, proprietária da Confraria da Gula, em Uberaba. “Iniciei desempregada, mãe de um bebê. Precisava pagar as contas”, disse. Roberta começou em 2002 fazendo ovos de Páscoa com apenas R$100,00, que pegou emprestado. Depois, passou a fazer trufas e pães de mel e diversificou seus produtos. Em 2019, foi escolhida como a confeiteira mais doce, da quinta temporada do programa Que Seja Doce, da GNT. Também foi a 5ª colocada no prêmio empreendedorismo popular Pega Visão, do Rick Chester. Raquel Resende, responsável pelo Parque Tecnológico e uma das organizadoras voluntárias do “Ela Pode”, em Uberaba, comentou a importância de ações do tipo que visem ajudar mulheres. “Empreender não tem glamour, não tem receita pronta e não tem garantias. Mas quando a gente se dedica, estuda, se capacita, a gente melhora, avança e consegue encarar os desafios”, disse.

Também para Juba Maria, jornalista e uma das responsáveis pela organização da “Nossa, Feira” a dinâmica do empreendedorismo é, por vezes, cruel. Por isso ela defende a lógica do cooperativismo pautado sob uma perspectiva feminista e adaptado aos novos tempos. “Hoje presenciamos mulheres sendo levadas para um empreender solitário, onde não há garantia de direitos. Quando ficam doentes, essas mulheres muitas vezes sequer tem acesso ao INSS”, comentou. Segundo ela, os princípios do apoio mútuo e da cooperação, pautados na sororidade e na independência, podem ser uma saída justa, ainda mais quando pautada pelos princípios da economia solidária e do feminismo”, explicou.

Daiana Virgínia, por exemplo, é proprietária da Dayaquina Confeitaria, em Uberlândia e esteve em Uberaba para trabalhar na organização do “Ela Pode”. Segundo contou à Mulheres, após o nascimento do filho e depois de 10 anos fazendo bolos em casa, ela decidiu empreender e isso fez com que se sentisse mais fortalecida. “Mal comecei meu negócio e meu faturamento já superou 20 mil reais”, contou.

Já a artesã Beth Finholdt esteve no “Nossa Feira” e conta que foi enriquecedora a experiência de se sentir acolhida entre mulheres em vez de vender isoladamente. “Não precisei ficar preocupada com o troco uma vez que o caixa era único para todas e assim fiquei mais tranquila, menos nervosa”, comentou. A feira contou ainda com apresentações artísticas, um varal de poesias, dança circular e um plantão psicológico.



Marcas com propósito

A economia do cuidado não se resume ao mercado de culinária, beleza, artesanato, moda e higiene. Tratam-se anda de negócios em que o cuidado com as pessoas e a natureza, e não o lucro, são os definidores das decisões organizacionais.

Criar marcas com propósito é justamente a expertise da palestrante Tati Ster. Ela ajuda empresas a tomar decisões e fazer as parcerias corretas para reduzir o stress e o tempo perdido. “Olhamos com cuidado para cada ponto de contato com o cliente para criar uma identidade marcante”, explicou. Durante a palestra, Tati deu dicas valiosas sobre networking, instruindo, por exemplo, sobre como abordar possíveis parceiros e fazer novas conexões.

 A enfermeira Suzana Lopes de Melo, por exemplo, é autora do livro “Amamentação: Contínuo Aprendizado” e atua na chamada economia do cuidado há 35 anos. Ela ajuda mães no processo de amamentação incentivando a adoção do copinho do bebê, que auxilia na ingestão do leite materno em condições em que as mães não conseguem amamentar.


Reinserção social

Algumas mulheres reeducandas da Penitenciária Professor Aluízio Ignácio Oliveira e que estão atualmente no regime semiaberto foram autorizadas, pela justiça, para participar dos eventos “Ela Pode” e “Nossa, feira!”. O pedido partiu da presidente do Conselho da Comunidade de Execução Penal, Roberta Toledo, a pedido de Juba Maria, também conselheira. As reeducandas foram liberadas por demonstrarem comportamento adequado e o eventos serem compatíveis com os objetivos da pena. “Eu errei e hoje, aqui, ouvindo várias mulheres, com histórias de vida, tenho a certeza que vou sair com mais força para recomeçar”, disse uma delas. No total, a Google já investiu 1 milhão de dólares no projeto do Instituto Rede Mulher Empreendedora, que pretende capacitar mais de 135.000 mulheres até o fim do ano. Já a INANA pretende dar prosseguimento às ações e deve organizar outra edição da feira até o fim do ano, além de promover visitas, rodas de conversa, palestras e capacitações.


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