Ousadia e inovação em tempos de crise


Empresários investem em novidades e alternativas para alavancar o comércio 

Jornalista Isabel Minaré


Sabe aquela história ‘Você cozinha muito bem. Poderia ganhar dinheiro com isso’? A engenharia civil Larissa Cecilio transformou o afeto e a aptidão pela cozinha em negócio exatamente assim. De tanto ouvir elogios de familiares e amigos em reuniões íntimas pelo excepcional sabor dos alimentos, Larissa e o marido decidiram criar a Zaatar Culinária Árabe Artesanal. A empresa surgiu em maio, durante a disseminação do novo coronavírus. A Zaatar ofereceu ao casal a oportunidade de elevar o orçamento familiar e aos clientes a chance de se deliciarem com pratos genuínos e caseiros.

Larissa é formada em Engenharia Civil. Ela viveu durante anos imersa em canteiros de obras. A rotina dela era cobrar os funcionários para se protegerem corretamente de acidentes. Era cobrança atrás de cobrança. No meio desse clima pesado, ela sentia falta de trabalhar com algo positivo, que proporcionasse alegria e leveza aos colegas e a si mesma. Além disso, desejava permanecer mais tempo com a família. Os anos se passaram e ela decidiu fazer de 2020 o momento certo para empreender.  Colocou a mão na massa, literalmente, para produzir esfirras, quibes, coalhadas e outras especialidades.

A Zaatar é uma das 202.239 empresas abertas no período de janeiro a julho de 2020 em Minas Gerais, de acordo com o banco de dados da Receita Federal do Brasil. No mesmo período, 73.965 foram fechadas. Ou seja, é um saldo positivo, mesmo com uma pandemia correndo solta pelo mundo. Em Uberaba, os segmentos que mais tiveram CNPJs abertos no mesmo intervalo de tempo foram restaurantes e outros estabelecimentos de alimentação e bebidas (278) e os que mais fecharam foram comércio varejista de artigos de vestuário e assessórios (116).


Larissa empreendeu durante a pandemia. Foto: Ighor Thomas

Segundo o gerente do Sebrae Minas na Regional Triângulo, William de Brito, as áreas que mais receberam investimento foram prestação de serviços, comércio, indústria, construção civil e agropecuária. Por outro lado, as mais afetadas foram as atividades ligadas a alimentação, beleza, publicidade, ensino, transporte, comércio varejista de vestuário e assessórios, bufês e praticamente toda cadeia do entretenimento e turismo.


Transformação digital “pra ontem”

Se tem algo claro na economia em tempos de covid-19 é a necessidade urgente da presença das empresas no universo digital para manter a competitividade. “Percebemos que ‘quase tudo’ é possível, de alguma forma, ser feito à distância e online. O que não pode ser virtual, pode ser entregue, e o que é mal avaliado é excluído automaticamente”, explica William. Ele indica três pontos a serem observados pelo empreendedor:  análise do modelo de negócio, melhoria nas formas de pagamento e logística e evolução contínua no atendimento e na fidelização do cliente. A tríade visa o consumo por excelência. “Quem está ali na sua frente, que foi até seu negócio, presencial ou virtualmente, não pode voltar de mãos vazias”, enfatiza.


Para William, o cliente não pode sair de mãos vazias. Foto: divulgação SEBRAE Minas


Fazer do limão uma limonada

No mercado desde 2011, a Imperial Brindes produz mais de três mil itens no setor de presentes personalizados. A pandemia fez diminuir a procura por esses produtos. O empresário Jota Gonçalves teve a ideia de aproveitar os colaboradores ociosos para fabricar artigos usados na defesa contra o novo coronavírus, como face shield (escudo facial de acrílico), máscaras de TNT e elásticos (usados na confecção de máscaras). Quando o mercado deu uma aquecida, ele voltou à criação de brindes, vendidos para todo o Brasil através da loja online própria.


Jota aproveitou a pandemia para produzir artigos de combate à covid-19.
Foto: arquivo pessoal

Buscar estratégias e alternativas de venda

Uma das práticas econômicas mais antigas do mundo, originada bem antes da moeda, está mais frequente nesta época: a permuta. Também conhecida como escambo, ela é um tipo de contrato realizado entre duas partes, no qual ocorre uma troca de valores, objetos ou serviços que não sejam quantias financeiras. É comprar sem tirar dinheiro do caixa. Assim, o empresário pode vender mais, reduzir custos e ainda aumentar a rede de contatos, tão importante para a manutenção do comércio ativo. Em Uberaba, um dos praticantes é Julio Dario, sócio da Via Permuta. O sistema funciona de maneira bilateral: uma padaria pode fornecer café para uma loja de celular, que por sua vez pode vender celulares para uma consultoria, que pode comprar pão da padaria. A demanda explodiu neste período. “Empreender é uma atividade solitária, então essa rede de apoio ajuda demais para que muitos não desistam perante a adversidade”, relata. Por isso, é tão importante a existência de um modelo de relacionamento empresarial no qual os associados se ajudem e se indiquem entre si no mercado. O primordial, em tudo isso, é se capacitar, estabelecer conexões e correr atrás dos objetivos e se lembrar de que, uma hora, a pandemia vai acabar.


Dario incentiva o escambo como comércio. Foto: Marise Romano

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