Jornalista Isabel Minaré

Morte atrás de morte. Pequenos caixões não paravam de chegar no cemitério. O desespero dominava quem enterrava seus ‘anjinhos’. Era preciso tomar uma atitude urgente para diminuir ou até acabar com a elevada taxa de mortalidade infantil que assolava Uberaba em 1935. Indignado, o chefe do Centro de Saúde da época, dr. João Machado, reuniu-se com médicos e damas da sociedade em busca de soluções. Após alguns encontros, em 15 de outubro do mesmo ano, foi fundada a Casa da Criança. Situada em um prédio alugado na praça Frei Eugênio, nº 32, a instituição teve como primeira tarefa a distribuição de leite às lactantes carentes. Com farmácia, ambulatório e enfermaria, ela atendia a aproximadamente 30 crianças por dia, vindas, inclusive, de outras cidades. A grande queda de óbitos foi percebida já no primeiro relatório. A comunidade se dedicou à causa ao contribuir com donativos. Médicos trabalhavam sem receber salário.

O espaço ficou pequeno para tantas necessidades e pacientes. A Casa teve que mudar para outro prédio, dessa vez na rua Lauro Borges, nº 28. Por exigência do Departamento Nacional da Criança, ela trocou de nome e passou a se chamar Hospital da Criança. Mais uma mudança, agora definitiva: com iniciativa do Rotary Club Uberaba, um hospital foi construído na mesma rua, mas no número 364. De lá pra cá, recebeu diversas melhorias, como elevador de maca-leito, brinquedoteca, gerador de energia e outros equipamentos de alto nível. A missão sempre foi promover o bem-estar físico, afetivo e psicológico das crianças atendidas e suas famílias.

Hoje, a entidade de utilidade pública federal ocupa quatro prédios em uma área de 3 mil m² aproximadamente, com 52 leitos, sendo 36 para atendimentos no SUS (Sistema Único de Saúde) e 16 para convênios e particulares. 134 funcionários são distribuídos entre administração, assistência social, cozinha, departamento pessoal, eletroencefalia, enfermagem, farmácia, faturamento, financeiro, higienização, lactário, lavanderia, manutenção, raio X, recepção e telemarketing. 40 médicos, em média, atendem diversas especialidades, como anestesiologia, cirurgia, citopalogia, neurologia, ortopedia, otorrinolaringologia, pediatria e radiologia.

O amor é voluntário. “Comece a rezar porque sua filha está morrendo”. Indubitavelmente, essa é uma frase que nenhum pai deseja ouvir. Mas foi o que Gerson Garatti escutou do dr. Humberto Ferreira sobre o estado de saúde de sua bebê. Ela recebeu amplos cuidados, sobreviveu e se tornou uma pessoa com força para transformar o mundo. Adulta, retornou ao local onde foi desenganada para ser voluntária. Essa é uma parte da história de Maria Aparecida Magnabosco, presidente do Hospital da Criança.

Há quase 40 anos, Cida, como é conhecida, foi convidada para participar do bazar da instituição. Ela foi, apaixonou-se pelo lugar, pelas pessoas e, principalmente, pelo ideal de desenvolvimento humano. Sabia que tinha muito a contribuir. Entrou em ação imediatamente. Por muitos anos, viajou rumo ao Brás, em São Paulo (SP), à procura de matéria-prima para o bazar. Em uma dessas jornadas, levou um tremendo susto. “Meu carro capotou na rodovia! Deu perda total! A frente (do veículo) acabou, mas o porta-malas, lotado de compras, ficou intacto. Não tive nenhum arranhão”, comemora. Festeja sim, porque naquele momento, não era só a vida dela que estava em risco, mas o trabalho que beneficiaria milhares de famílias.

As edições dos bazares foram verdadeiros sucessos. “Ele era considerado o melhor da cidade pela qualidade das peças, confeccionadas com muito capricho e dedicação. No dia, fazia fila na porta e o estoque se esgotava em questão de horas”, afirma. Eventos como esse contribuem na manutenção da entidade. Somente em setembro deste ano, o orçamento foi de aproximadamente R$ 1 milhão. “O hospital é privado, filantrópico e sem fins lucrativos. Não tem mantenedora. Ele vive de doações, serviços prestados à comunidade e emendas parlamentares”, afirma Marisa Borges, diretora administrativa. 

Marisa é a funcionária mais antiga, com 36 anos de casa. E é a casa dela mesmo, a qual defende com coragem e sabedoria. Nas horas boas e ruins, ela está presente.  “Já passamos por muitas dificuldades. Teve época de quase fecharmos as portas por não termos mais condições de manter o hospital”, relata, ao se lembrar dos atraso de repasse do SUS. Dinheiro pode não ter, mas crianças pra serem atendidas nunca faltam. “É uma média de 150 pacientes por dia. Tempo seco tem mais movimento que o chuvoso”. O espaço atende casos de baixa e média complexidade e conta com duas salas cirúrgicas equipadas para atender situações de urgência e emergência. A lavanderia própria, com calandra industrial e máquinas de costura, e a permanência de farmacêutico 24 horas/ 7 dias por semana são motivos de orgulho, pois significam independência e obediência às normas da Vigilância Sanitária. O Hospital da Criança assumiu toda a pediatria de pronto atendimento do SUS de Uberaba em 2019, através de parceria com a prefeitura, a UPA da Criança. Outras parcerias são com a Uniube (Universidade de Uberaba) e a UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro).

Nesses 86 anos de história, Marisa destaca alguns nomes relevantes para a entidade: Terezinha Cartafina (ex-primeira-dama e ex-vereadora), Nárcio Rodrigues (ex-deputado federal), Carlos Viana (senador), Franco Cartafina, Adelmo Leão (ambos deputados federais) e Ana Paula Bosi (pediatra e vice-presidente da instituição). A doutora aponta um problema grave não só para o Hospital como para todo o Brasil: a falta de pediatras. “Numa turma de 11 alunos, se você pergunta quem quer ser pediatra, as vezes ninguém levanta a mão”, relata. Ela sente amor em cuidar de crianças no local, onde está há mais de 30 anos. “Todo dia aqui é emocionante. É um lugar que vi aprimorar e me sinto honrada em trabalhar”, finaliza.


Instituição tem estruturada para receber com agilidade pacientes que chegam de ambulância

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cantinho da fé

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Calandra industrial é motivo de orgulho para a aministração da entidade

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Galeria eterniza trabalho de ex-presidentes

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Ambiente tem imagem lúdica para entreter os pacientes

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Presidente Maria Aparecida posa na UTI equipada para sediar cirurgias de baixa e média complexidade

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Ana Paula Bosi é vice-presidente e pediatra do hospital há mais de 30 anos

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11Jul